Dados do IBGE mostram que pessoas entre 60 e 64 anos concentram a maior proporção de diagnósticos de depressão no país. Especialistas explicam os sintomas e os desafios para identificar a doença na terceira idade.
A população acima dos 60 anos é a mais afetada por uma psicopatologia que exige tanta atenção quanto qualquer doença física: a depressão.
De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a doença atinge 13,2% das pessoas entre 60 e 64 anos, tornando essa a faixa etária proporcionalmente mais afetada no Brasil. Em seguida aparecem os idosos de 65 a 74 anos, com 11,8%.
Faixa etária mais afetada pela depressão no Brasil
A psicóloga clínica Marcia Yamada explica que a depressão pode surgir em qualquer momento da vida, da infância ao envelhecimento.
Segundo ela, muitas pessoas idosas cresceram em um contexto marcado pelo preconceito em relação aos cuidados com a saúde mental, o que pode dificultar a busca por ajuda profissional.
“Existem pessoas que desde sempre apresentaram sintomas depressivos, que desde muito cedo já eram pessoas que apresentavam sintomas, só que muitas vezes o idoso de hoje é uma pessoa que negou a vida inteira a saúde mental. Eram pessoas que acreditavam que psicólogo e psiquiatra era ‘coisa de doido’. Isso foi repetido pelas gerações, mas, hoje, os seus filhos e netos começam a perceber que o cuidar da saúde mental é para todo mundo”, afirma.
Depressão não é o mesmo que tristeza
A especialista ressalta que muitas pessoas usam a palavra depressão para definir qualquer momento de tristeza. No entanto, essa interpretação está incorreta.
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A tristeza é uma resposta natural do ser humano a situações adversas da vida, como a perda de alguém, a frustração por algo que não deu certo ou uma separação, por exemplo. Todas essas situações podem trazer tristeza, que é uma emoção normal e precisa ser vivida como a alegria ou qualquer outra.
Já a depressão é uma doença com critérios diagnósticos definidos.
“A depressão é uma doença que tem sintomas e esses sintomas têm que se repetir por pelo menos duas semanas, segundo o DSM”, destaca.
Sinais que familiares e cuidadores devem observar
Entre os sintomas que podem indicar depressão em idosos estão:
- humor deprimido e tristeza profunda;
- perda do prazer em atividades antes consideradas agradáveis;
- cansaço excessivo e persistente;
- dificuldade de concentração;
- redução da autoestima;
- sentimentos de culpa ou inutilidade;
- alterações do sono;
- mudanças no apetite.
Marcia Yamada reforça que os sintomas precisam permanecer por pelo menos duas semanas e causar prejuízos à vida da pessoa.
“Os critérios diagnósticos para identificar a depressão ou para levar a um serviço especializado precisa permanecer por no mínimo duas semanas. É quando eles prejudicam o funcionamento psicossocial do indivíduo e aí causa um sofrimento significativo para o indivíduo e para o próprio cuidador”, explica.
O papel da família na busca por tratamento
Uma característica comum nos casos de depressão em idosos é que, muitas vezes, eles não procuram ajuda por iniciativa própria. Por isso, a psicóloga reforça que é importante conversar primeiro com a família porque, normalmente, o idoso não busca o atendimento por demanda própria.
A psicóloga também destaca que saúde física e saúde mental estão diretamente relacionadas.
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“É preciso entender que não existe divisão entre cérebro e corpo, a não ser nas aulas de biologia. Nós somos um corpo só, então, a minha psicopatologia pode desencadear uma patologia orgânica, tanto quanto uma patologia orgânica pode desencadear uma psicopatologia”, relaciona.
Depressão pode afetar a funcionalidade e a qualidade de vida
A médica geriatra Niele Silva de Moraes destaca que a depressão pode influenciar diversos aspectos da saúde.
Segundo ela, estudos apontam que a doença é um importante fator de risco para a doença de Alzheimer, por exemplo.
“Além disso, a depressão interfere muito na funcionalidade, pode levar ao isolamento social e compromete a qualidade de vida. É como se a vida que antes era colorida, fosse coberta por uma cortina que faz tudo ficar preto e branco e a pessoa não tem esperança de que essa cortina sairá de lá novamente”, descreve.
Depressão não faz parte do envelhecimento
Apesar de frequente, a depressão não deve ser encarada como uma consequência natural da idade.
“A depressão é um problema tão comum em pessoas idosas que, infelizmente, muitos acham, erroneamente, que é ‘normal da idade avançada’. Isso faz com que muitos idosos não reclamem dos sintomas ou, às vezes, até nem percebam estes sintomas”, alerta Niele.
Ela reforça que familiares, amigos e cuidadores exercem papel fundamental na identificação dos sinais.
“É importante lembrar que a pessoa deprimida pode não ter ânimo nem para pedir ajuda, pode sentir-se culpada por estar desse jeito e pode não ter esperança de que vai melhorar, por isso o papel dos familiares, amigos e cuidadores é fundamental. E, idealmente, alguém próximo deve acompanhar o idoso na consulta.”
Por que o diagnóstico pode ser mais difícil nos idosos?
De acordo com a geriatra, os sintomas mais conhecidos da depressão são tristeza persistente e perda de interesse por atividades antes prazerosas. No entanto, esses nem sempre são os sinais mais evidentes na terceira idade.
“Idosos geralmente queixam-se mais de inquietude, sintomas somáticos, como fadiga, perda do apetite, insônia ou excesso de sono e perda do interesse sexual, além de sintomas cognitivos, como comprometimento da memória e lentificação do raciocínio”, explica.
Ela acrescenta que o comprometimento cognitivo pode ser tão intenso que chega a se parecer com um quadro de demência.
“O comprometimento cognitivo na depressão pode ser tão importante que pode parecer um quadro de demência, chamado de síndrome demencial da depressão”, esclarece.
Além disso, outras doenças e medicamentos podem provocar sintomas semelhantes, tornando o diagnóstico ainda mais desafiador.
“Alguns podem ter dificuldade de comunicação, trazendo dificuldade para expressar o que estão sentindo; e negação da doença por acharem que faz parte do envelhecimento. É importante lembrar: depressão não é normal do envelhecimento, também não é falta de força, coragem ou falta de fé”, reforça.
“Depressão é uma doença e precisa de tratamento. E o tratamento melhora os sintomas e recupera a felicidade, o prazer e os sintomas que prejudicam tanto a qualidade de vida e até o funcionamento físico da pessoa idosa, que é abalado pela saúde mental”.
Editado por Luiz Octávio Lucas
